terça-feira, 21 de março de 2017

Entrevista ao Prof. Carlos Ramalhete




Bernardo Souto: Professor,  soube que o senhor está oferecendo um curso sobre a Doutrina Social da Igreja. Por experiência própria, sei que apenas uma parcela ínfima dos católicos brasileiros conhecem a DSI.  Quais são as principais consequências de tal desleixo e de que maneira esse fenômeno pode ser explicado?  

Prof. Carlos Ramalhete: Além do curso - que deve ter outra turma em breve - há um Manual da DSI, que será publicado em breve pela Quadrante. Quanto à pergunta propriamente dita, as consequências deste desleixo são facílimas de ver: basta prestar atenção na mínima atuação política e no enorme complexo de salvador num cavalo branco que nos dá Getúlios e Lulas. As pessoas, por falta de formação na DSI, acreditam nas besteiras que lhes são ditas por maus políticos.

BS: A maioria dos católicos sensatos que conheço acreditam que o Concílio Vaticano II  trouxe coisas positivas e negativas.  Gostaria de saber o que o senhor pensa a respeito desse tema tão controverso.

Prof. CM: O problema do CVII não é o Concílio, mas o famigerado "espírito do concílio", que veio, como que um espírito de porco, estragar e desfazer liminarmente tudo o que quis o Concílio real. Agora, passados mais de 50 anos, é que estamos conseguindo começar a respirar no meio dos miasmas absurdos de interpretações delirantes do CVII e apreciar a realidade dos documentos conciliares, não daquele seu falso "espírito". A decisão de S. João Paulo II de colocar tudo quanto é documento eclesial na Internet sem dúvida ajudou muito neste ponto.

BS: O atual Papa vem sendo amado por alguns e odiado por outros.  Caso se sinta à vontade para responder, quais são os acertos e os deslizes do pontificado de Francisco?  

Prof. CM:  Acertos - ele trouxe a misericórdia divina para o centro da experiência cristã, como deve ser; deslize, se é que se pode chamar assim: ele, como aliás todos os seus antecessores, tem dificuldade em lidar com a mídia, que distorce tudo o que diz.

BS: Um colega meu, que estuda a História da Igreja há certo tempo, crê que a Teologia da Libertação ganhou força porque nós, católicos, desdenhamos a importância das chamadas obras de misericórdia. O que o senhor tem a dizer a respeito dessa questão?  

Prof. CM: Muito pelo contrário. A TL ganhou corpo justamente porque fazia parecer que o marxismo era uma maneira de fazer no atacado as obras de misericórdia físicas, sempre tidas como valiosas na nossa cultura.

BS: Lendo o famoso Compêndio da Doutrina Social da Igreja, fiquei com a impressão – que pode muito bem ser equivocada, diga-se de passagem – de que a Igreja Católica sugere que o tamanho do Estado deve ser intermediário – nem enorme, como pregam os comunistas, nem microscópico, como pregam os libertários –. Gostaria de saber a sua opinião a respeito desse tema.  

Prof. CM: A questão não é o "tamanho" do Estado (a ser medido como? Número de funcionários?), sim as funções precípuas do Estado. A DSI vai frontalmente contra os ditames da modernidade do século passado ao deixar ao Estado apenas o que não é passível de ser resolvido pelas instâncias inferiores, sem contudo fazer listinhas casuísticas de o que deve e o que não deve recair em cada esfera. No mais, parabéns por ter conseguido encarar o Compêndio!

BS: Sabemos que, no fundo, o conservadorismo possui raízes protestantes. Mas o marxismo, por ser uma ideologia de base materialista e ateia, sem dúvida é um mal maior, por assim dizer. O que o senhor pensa a respeito disso?


Prof. CM: O conservadorismo anglo-saxão que anda na moda tem, sim, raízes protestantes. Mas nós temos um conservadorismo legitimamente cristão e católico no Brasil, graças a Deus, e mais valeria mergulhar nele que em modelos importados.

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