domingo, 19 de março de 2017

Os filhos do tio cônego; ou: os hereges de hoje



Por Bernardo Souto

O crítico literário canadense Northrop Frye dizia que uma das funções primordiais da Literatura é criar personagens verossímeis e prototípicas, personagens que nos ajudem a sondar a psique humana e a deslindar as intrincadas relações sociais nas quais estamos inseridos. É impossível que alguém leia atentamente Otelo, por exemplo, e não passe a ter uma visão mais rica e densa do que se passa na cabeça do ciumento e do invejoso. Os grandes escritores, de fato, têm essa capacidade de mergulhar em profundidade na alma do homem. Basta dizer que, não fosse pela leitura de Sófocles e de Dostoiévski, Freud dificilmente teria chegado a formular alguns conceitos que são basilares dentro da Psicanálise. E aqui não me cabe dizer até que ponto o método científico do Pai da Psicanálise é válido, mas é preciso dizer que, sem a contribuição intelectual do famoso clínico austríaco, pensadores do porte de Viktor Frankl ou de Mortimer Adler não teriam os fundamentos sobre os quais assentaram posteriormente as suas idéias.  

Pois bem. Relendo despretensiosamente as Memórias Póstumas de Brás Cubas, deparo-me com uma dessas personagens prototípicas – no sentido fryiano do termo –, com uma dessas personagens que nos fazem enxergar o modus vivendi de todo um grupamento humano: trata-se do cônego, tio de Brás Cubas. O cônego é o típico cristão que, por se ater demais a externalidades, acaba por não enxergar o essencial. A descrição que o Bruxo do Cosme Velho faz do santarrão contém uma agudeza de percepção digna dos grandes mestres da Literatura:

"Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contudo, não realçavam um espírito superior, apenas compensavam um espírito medíocre. Não era homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepelizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos."

Ora, não há como ler essa caracterização e não lembrar  de certa tendência neofarisaica que existe na Igreja de hoje. É que muitos cristãos, ao se apegarem demasiadamente ao aspecto ritualístico e litúrgico do Cristianismo, acabam negligenciando questões  importantíssimas, como as chamadas obras de caridade e de misericórdia; afinal de contas, indaga-se o poeta Ângelo Monteiro: "quantos desses indivíduos que, sem conseguirem descobrir, durante a existência, a face do próximo, estariam em verdadeiras condições para contemplar a face de Deus por toda a eternidade?" E assim, esquecendo-nos de que a parte é só uma parcela do todo, acabamos caindo em heresia, pois que "a heresia [diz-nos Chesterton] não consiste em negar a verdade, mas em apegar-se a um só aspecto da verdade e dali julgar, ou melhor, pré-julgar a existência e reduzi-la toda a um único aspecto", (cf. The Outline of Sanity).

É precisamente por isso que, como o Padre Paulo Ricardo, não creio muito nesse negócio de católicos conservadores, nem muito menos em católicos progressistas. Só acredito em católicos autênticos, ou, para ser redundante, em católicos totais:

“O que quer dizer Católico? A palavra Católico significa o Todo, você precisa ver o Todo. Mas o fanático... O fanático faz o quê? Ele pega uma verdade,  e transforma aquela uma verdade em verdade absoluta. E se agarra com aquela verdade. Pode ser um fanático de direita, ou um fanático de esquerda,  não interessa. Ele pega uma verdade, e com aquela verdade ele condena todo mundo. E se torna rancoroso, e se torna triste... Mas o Católico, ele consegue ver o Todo!" 
(Padre Paulo Ricardo de Azevedo, TDE.10: Terapia da Tristeza, dos 30` 21`` aos 31` e 19``.)

Não foi à toa que Chesterton, que também sabia das coisas, resolveu estudar especificamente santo Tomás de Aquino e são Francisco de Assis. No fundo, ele percebeu que são santos complementares, no sentido de que se completam. Sim, o verdadeiro católico consegue ver o todo.   

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