quinta-feira, 16 de março de 2017

Entrevista ao poeta e filósofo Ângelo Monteiro

     



            Entrevista publicada originalmente na revista Tom, do Paraná, em meados 2013


    Bernardo Souto A que se deve o vale-tudo estético que impera na poesia brasileira contemporânea?

Ângelo Monteiro:  O que se pode esperar senão isso da experiência de pobres estudantes colhidos numa armadilha criada por seus desorientados mestres que fizeram introduzir, com critérios meramente mercadológicos, nos livros didáticos do curso médio, letras de músicas geralmente desqualificadas em vez de textos dos nossos prosadores e poetas como em passado mais recente?

     BS: O senhor concorda com o filósofo romeno Emil Cioran, para quem o escritor é o ser mais vaidoso que existe?

AMCioran apenas nos repete a lição do Eclesiastes ao nos proclamar, para todo o sempre, que tudo, ao final das contas, não passa de vaidade.

BS: O senhor acha que a poesia perdeu a sua função pedagógica?

AM:  Antes de perder sua função pedagógica, que é a de nos apontar para a transcendência, por meio do seu caráter paradigmático, ela viu desfigurada sua própria função estética, que é a de educar os nossos sentidos. 

   BS:  Até que ponto o marxismo cultural contribuiu para o declínio das artes?

AM: O marxismo, por desconhecer e desprezar qualquer plano axiológico, de acordo com sua conhecida visão coletivista ou niveladora, teria que fatalmente colocar no mesmo nível o estético e o inestético em arte, conforme vem acontecendo nos espaço da autonomeada arte contemporânea.   

BS: Existe alguma relação entre o ateísmo contemporâneo (neo-ateísmo) e o declínio das artes?

AM: A morte do sagrado,seja qual for a sua forma, leva necessariamente ao declínio das artes. Dá-se, então, uma completa inversão da sentença do filósofo pré-socrático Tales de Mileto: “Tudo está cheio de deuses.” Ou seja: com a erradicação do divino, tanto no seio da physis (natureza) como no passado filosófico, quanto no seio da cultura, como no mundo contemporâneo, a arte passa a sofrer um processo de decadência. Daí a ênfase de pensadores como Heidegger ao considerar, como fazendo parte do que ele chama de âmbito quadripartido os céus, a terra, os deuses e os mortais. Ou de um Alfonso López Quintás para quem “as coisas são pontos de confluência de realidades diversas que se entremisturam.” É impossível, portanto, qualquer inspiração artística sem essa inter-relação vital e dinâmica entre os múltiplos âmbitos da realidade como postulam, por exemplo, dois conhecidos biólogos do nosso tempo, Maturana e Varella.

BS: Como explicar o desinteresse dos jovens brasileiros pelas obras de autores canônicos, como Camões e Machado de Assis?

AM: Esse desinteresse é justamente o resultado da redução de toda curiosidade intelectual às diretivas da chamada cultura de massa.


BS: O que motivou o senhor a escrever o livro Arte ou Desastre?

AM: Acredito que Arte ou Desastre é mais uma tentativa, entre muitas talvez desconhecidas, de chamar a atenção para o descalabro de uma cultura que, sob todos os aspectos, encarna a mais acabada negação de si mesma. 

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