quinta-feira, 2 de março de 2017

O MUNDO EM PRETO E BRANCO



Por Bernardo Souto

Quanto mais simplório o discurso, mais assimilável; quanto mais assimilável, mais adorado pelas multidões; quanto mais adorado pelas multidões, mais raso; quanto mais raso, mais falso. É por isso que Mallarmé dizia, com razão, que ser pouco lido é uma glória. Antonin-Gilbert Sertillanges, em seu exemplar A Vida Intelectual, também chegou à mesma conclusão: "O público, de modo geral, é vulgar e só gosta da vulgaridade. Os editores de Edgar Poe diziam ser obrigados a pagar-lhe menos do que a outros, porque ele escrevia melhor que os outros. Conheci um pintor a quem um marchand de arte dizia: 'Seria bom tomar umas aulas.' — ?... — 'Sim, para aprender a não pintar tão bem'. O homem dedicado à perfeição não entende essa linguagem, ele não aceita por preço algum, sob forma alguma, ser um seguidor do que o Baudelaire chamava de zoocracia"[i]. Baudelaire ilustra brilhantemente essa falta de refinamento estético e intelectual do grande público – essa zoocracia – em um de seus poemas em prosa:

O CÃO E O FRASCO

— Meu belo cão, meu cãozinho, meu querido totó, vem cá, vem respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade.
E o cão, agitando a cauda, o que é, suponho, entre esses pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e, curioso, mete o nariz úmido no frasco destampado; mas subitamente, recuando de susto, late contra mim, à feição de reprimenda.
— Ah, miserável cão! se eu te houvesse oferecido um embrulho de excremento, decerto o cheirarias com delícia e talvez o tivesses devorado. Assim, ó indigno companheiro de minha triste vida, tu te assemelhas ao público, a quem nunca se devem apresentar perfumes delicados, que o exasperam, mas imundícies cuidadosamente escolhidas.[ii]

Ora, não há nada mais patético e deprimente do que o burro que se acha genial.  É claro que, como cristãos, devemos ter misericórdia. Mas, quando a burrice vem acompanhada da presunção e da arrogância, é algo deveras difícil de suportar.

Qualquer idiota, afinal de contas, deveria saber que compreender a complexidade do real é tarefa de uma vida inteira, a menos que o Espírito Santo dê ao sujeito enorme quantidade de sabedoria infusa, o que, convenhamos, não é lá muito freqüente... Sócrates teve plena consciência disso, pois que conseguia intuir os limites da cognição humana e, por isso mesmo, pôde ser um homem verdadeiramente humilde. Também o poeta japonês Matsuo Bashō, à sua maneira, sintetizou bem tal idéia: "Só deve ensinar quem já sabe de tudo". É uma sentença hiperbólica, claro.  Mas, pelo menos, nos ajuda a ter um vislumbre do caminho a seguir.

Os ideólogos, contudo, têm verdadeiro horror à complexidade do real. Por isso, a fim de justificar suas narrativas simplórias e frágeis – com as quais tentam desesperadamente ocultar de si mesmos o cadáver espiritual que dentro deles apodrece –, começam a filtrar maliciosamente as notícias, numa tentativa algo desesperada de fazer do mundo a argila com a qual moldarão seus rostos carcomidos: gesto cuja puerilidade não deixa de ser uma espécie de paródia satânica do divino ato da criação. E assim, à maneira dos esquizofrênicos e dos retardados crônicos, se abrigam nestes simulacros de mundo, resguardando-se de qualquer paradoxo que ponha em xeque a lógica precária de seus puzzles infanto-juvenis. Para eles, tudo se resume à estrutura binária do jogo de damas; eis por que pensam, mui ingenuamente, que o mal sempre aparece vestido de negro...




[i] SERTILLANGES, Antonin-Gilbert. A Vida Intelectual. São Paulo: É Realizações, 2010. p. 16.
[ii] BAUDELAIRE, Charles. Pequenos Poemas em Prosa. Trad. Aurélio Buarque de Hollanda, 1950. 

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