terça-feira, 21 de março de 2017

Um poema de Wladimir Saldanha



na morte do bezerra, ou do bezerro

Un golpe de ataúd en tierra es algo
perfectamente serio.
(antonio machado)

Mas que inferno agora é um enterro!
Já ninguém mais se encolhe, ou silencia;
quem chora, chora alto; e há quem ria
na morte do Bezerra, ou do bezerro.

Estar contrito − sério!, é quase um erro.
E enquanto o padre tarda, fica em dia
aquele papo antigo, quem diria
− em um lugar assim, um cemitério!

Marquemos outro dia, outro lugar...
Mas, vá: anote aí meu celular −
é meia, meia... “Mal, Senhor, amém!”

Pois foi melhor assim! Vai repousar,
o que sofreu, agora... E k-k-k!,
...me conte se o Bezerra deixou bens.

________________________________
WLADIMIR SALDANHA nasceu em 1977, em Salvador, cidade onde reside. Estreou com As culpas do poema (Scortecci, 2012), livro distinguido com o X Prêmio Literá­rio Asabeça para a Região Nordeste, categoria poesia. Esse primeiro título seria incorporado ao volume Culpe o vento (7Letras, 2014). Lançou ainda Lume Cardume Chama (7Letras, 2014) − obra selecionada para publicação pela Fundação Cultural da Bahia. Participou das antologias portuguesas Poetas na surrealidade em Es­tremoz (2007) e DiVersos – Poesia e Tradução (2008). Recebeu menção honrosa do Prê­mio SESC de Literatura 2011-2012, categoria livro de contos. Possui formação jurídica, sendo também mestre e doutor em letras pela UFBA. Em 2015, lançou o livro Cacau inventado, pela editora Mondrongo, de Ilhéus. 

Entrevista ao grande professor e ensaísta Carlos Ramalhete




Bernardo Souto: Professor,  soube que o senhor está oferecendo um curso sobre a Doutrina Social da Igreja. Por experiência própria, sei que apenas uma parcela ínfima dos católicos brasileiros conhecem a DSI.  Quais são as principais consequências de tal desleixo e de que maneira esse fenômeno pode ser explicado?  

Prof. Carlos Ramalhete: Além do curso - que deve ter outra turma em breve - há um Manual da DSI, que será publicado em breve pela Quadrante. Quanto à pergunta propriamente dita, as consequências deste desleixo são facílimas de ver: basta prestar atenção na mínima atuação política e no enorme complexo de salvador num cavalo branco que nos dá Getúlios e Lulas. As pessoas, por falta de formação na DSI, acreditam nas besteiras que lhes são ditas por maus políticos.

BS: A maioria dos católicos sensatos que conheço acreditam que o Concílio Vaticano II  trouxe coisas positivas e negativas.  Gostaria de saber o que o senhor pensa a respeito desse tema tão controverso.

Prof. CM: O problema do CVII não é o Concílio, mas o famigerado "espírito do concílio", que veio, como que um espírito de porco, estragar e desfazer liminarmente tudo o que quis o Concílio real. Agora, passados mais de 50 anos, é que estamos conseguindo começar a respirar no meio dos miasmas absurdos de interpretações delirantes do CVII e apreciar a realidade dos documentos conciliares, não daquele seu falso "espírito". A decisão de S. João Paulo II de colocar tudo quanto é documento eclesial na Internet sem dúvida ajudou muito neste ponto.

BS: O atual Papa vem sendo amado por alguns e odiado por outros.  Caso se sinta à vontade para responder, quais são os acertos e os deslizes do pontificado de Francisco?  

Prof. CM:  Acertos - ele trouxe a misericórdia divina para o centro da experiência cristã, como deve ser; deslize, se é que se pode chamar assim: ele, como aliás todos os seus antecessores, tem dificuldade em lidar com a mídia, que distorce tudo o que diz.

BS: Um colega meu, que estuda a História da Igreja há certo tempo, crê que a Teologia da Libertação ganhou força porque nós, católicos, desdenhamos a importância das chamadas obras de misericórdia. O que o senhor tem a dizer a respeito dessa questão?  

Prof. CM:  A TL ganhou corpo justamente porque fazia parecer que o marxismo era uma maneira de fazer no atacado as obras de misericórdia físicas, sempre tidas como valiosas na nossa cultura.

BS: Lendo o famoso Compêndio da Doutrina Social da Igreja, fiquei com a impressão – que pode muito bem ser equivocada, diga-se de passagem – de que a Igreja Católica sugere que o tamanho do Estado deve ser intermediário – nem enorme, como pregam os comunistas, nem microscópico, como pregam os libertários –. Gostaria de saber a sua opinião a respeito desse tema.  

Prof. CM: A questão não é o "tamanho" do Estado (a ser medido como? Número de funcionários?), sim as funções precípuas do Estado. A DSI vai frontalmente contra os ditames da modernidade do século passado ao deixar ao Estado apenas o que não é passível de ser resolvido pelas instâncias inferiores, sem contudo fazer listinhas casuísticas de o que deve e o que não deve recair em cada esfera. No mais, parabéns por ter conseguido encarar o Compêndio!

BS: Sabemos que, no fundo, o conservadorismo possui raízes protestantes. Mas o marxismo, por ser uma ideologia de base materialista e ateia, sem dúvida é um mal maior, por assim dizer. O que o senhor pensa a respeito disso?


Prof. CM: O conservadorismo anglo-saxão que anda na moda tem, sim, raízes protestantes. Mas nós temos também uma tradição legitimamente cristã e católica com raízes  brasileiras, graças a Deus, e mais valeria mergulhar nela que em modelos importados.

domingo, 19 de março de 2017

Os hereges de hoje



Por Bernardo Souto

“Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu semelhante, é mentiroso; pois aquele que não ama seu semelhante, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 João 4,20).

O crítico literário canadense Northrop Frye dizia que uma das funções primordiais da Literatura é criar personagens verossímeis e prototípicas, personagens que nos ajudem a sondar a psique humana e a deslindar as intrincadas relações sociais nas quais estamos inseridos. É impossível que alguém leia atentamente Otelo, por exemplo, e não passe a ter uma visão mais rica e densa do que se passa na cabeça do ciumento e do invejoso. Os grandes escritores, de fato, têm essa capacidade de mergulhar em profundidade na alma do homem. Basta dizer que, não fosse pela leitura de Sófocles e de Dostoiévski, Freud dificilmente teria chegado a formular alguns conceitos que são basilares dentro da Psicanálise. E aqui não me cabe dizer até que ponto o método científico do Pai da Psicanálise é válido, mas é preciso dizer que, sem a contribuição intelectual do famoso clínico austríaco, pensadores do porte de Viktor Frankl ou de Leopold Szond não teriam os fundamentos sobre os quais assentaram posteriormente as suas ideias.  

Pois bem. Relendo despretensiosamente as Memórias Póstumas de Brás Cubas, deparo-me com uma dessas personagens prototípicas – no sentido fryiano do termo –, com uma dessas personagens que nos fazem enxergar o modus vivendi de todo um grupamento humano: trata-se do cônego, tio de Brás Cubas. O cônego é o típico cristão que, por se ater demais a externalidades, acaba por não enxergar o essencial. A descrição que o Bruxo do Cosme Velho faz do santarrão contém uma agudeza de percepção digna dos grandes mestres da Literatura:

"Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contudo, não realçavam um espírito superior, apenas compensavam um espírito medíocre. Não era homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepelizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos."

Ora, não há como ler essa caracterização e não lembrar  de certa tendência neofarisaica e neodonatista que existe na Igreja de hoje. É que muitos cristãos, ao se apegarem demasiadamente ao aspecto ritualístico e litúrgico do Cristianismo, acabam negligenciando questões  importantíssimas, como as chamadas obras de caridade e de misericórdia; afinal de contas, indaga-se o poeta Ângelo Monteiro: "quantos desses indivíduos que, sem conseguirem descobrir, durante a existência, a face do próximo, estariam em verdadeiras condições para contemplar a face de Deus por toda a eternidade?". Ou, para ser ainda mais enfático: A fé sem obras é morta (Tg 2, 17). E assim, esquecendo-nos de que a parte é só uma parcela do todo, acabamos caindo em heresia, pois que "a heresia [diz-nos Chesterton] não consiste em negar a verdade, mas em apegar-se a um só aspecto da verdade e dali julgar, ou melhor, pré-julgar a existência e reduzi-la toda a um único aspecto" (cf. The Outline of Sanity).

É precisamente por isso que, como o Padre Paulo Ricardo, não creio muito nesse negócio de católicos conservadores, nem muito menos em católicos progressistas, que desejam transformar a Igreja numa espécie de ONG filantrópica imanentista.  Só acredito em católicos autênticos, ou, para ser redundante, em católicos totais:

“O que quer dizer Católico? A palavra Católico significa o Todo, você precisa ver o Todo. Mas o fanático... O fanático faz o quê? Ele pega uma verdade,  e transforma aquela uma verdade em verdade absoluta. E se agarra com aquela verdade. Pode ser um fanático de direita, ou um fanático de esquerda,  não interessa. Ele pega uma verdade, e com aquela verdade ele condena todo mundo. E se torna rancoroso, e se torna triste... Mas o Católico, ele consegue ver o Todo!" (Padre Paulo Ricardo de Azevedo, TDE.10: Terapia da Tristeza, dos 30` 21`` aos 31` e 19``).

Não foi à toa que Chesterton, que também sabia das coisas, resolveu estudar especificamente Santo Tomás de Aquino e São Francisco de Assis. No fundo, ele percebeu que são santos complementares, no sentido de que se completam. Sim, o verdadeiro católico consegue ver o todo.   

sábado, 18 de março de 2017

Um poema do livro 'Yumê', do poeta paulista Cláudio Daniel




Tabi

o vento
açoita
bambus:

dançam
sombras.

no caule
da vagem,
o orvalho

resvala
na lua.

o gato
imita
o tigre:

rumor
de aves.

brancas
geleiras
lácteas:

o colo
do cisne.

o fuji
apunhala
a névoa:

fiapos
de branco.

no sonho,
o monge
em viagem:

tudo
é miragem.

_______

 DANIEL, Cláudio. Yumê. Prefácio de José Kozer. São Paulo: Edições do Ocidente, 1999.

Em 2015, o amigo Giovani Rodrigues selecionou alguns aforismos de minha lavra. Ei-los:



Publicados originalmente no blog O Campanhense, em setembro de 2015.

Um poema de João Filho



UMA MULHER TODA MÚSICA

Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.

Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível

o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe

o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.

____________________

JOÃO FILHO nasceu em 1975, em Bom Jesus da Lapa/BA. Participou de algumas antologias, dentre elas: Terriblemente felices. Nueva narrativa brasileña, Emecé Editores, 2007, Argentina; 90-00: cuentos brasileños contemporâneos, Ediciones Copé, 2009, Peru; Geração Zero Zero, fricções em rede, Língua Geral, 2011, Brasil; Popcorn unterm Zuckerhut, Verlag Klaus Wagenbach, 2013, Alemanha.
Publicou Encarniçado, contos, pela Editora Baleia, em 2004, livro com recente tradução para o espanhol, editado no México em 2015. Com Encarniçado, João Filho obteve grande destaque individual na Festa Literária Internacional de Paraty de 2005. Contudo, voltou ao mercado editorial somente quatro anos mais tarde, com o livro de contos Ao longo da linha amarela em 2009, dando sequência no gênero prosa com o volume de crônicas Dicionário amoroso de Salvador, editado pela Casarão do Verbo em 2014.
No gênero poesia, após uma estreia com o opúsculo As Três Sibilas em 2009, publica A Dimensão Necessária pela Editora Mondrongo, 2014.
O autor ganhou o Prêmio Alphonsus de Guimaraens de 2015, pela Biblioteca Nacional, por seu livro A Dimensão Necessária.

Prefácio ao livro 'O Canto da Esfinge', de Ângelo Monteiro




O Canto da Esfinge

Por Bernardo Souto, setembro de 2013

Nem todos sabem, mas, entre as décadas de 1940 e 1960, houve uma querela crítica em torno de uma suposta falta de brasilidade e de um possível anacronismo da poesia de Cecília Meireles — hoje considerada uma das mais altas vozes da lírica brasileira do séc. 20. Devemos ao ensaísta austro-brasileiro Otto Maria Carpeaux o sepultamento definitivo de tal querela. Para Carpeaux, “a poesia da Sra. Cecília Meireles é intemporal”. No entender do grande crítico, poesia intemporal (ou atemporal) é aquela que, por possuir inquestionável valor estético, transcende os acidentes e as contingências temporais, ou, caso queiramos fazer uso da já consagrada terminologia platônica, é aquela voltada para as questões essenciais da existência – tais questões, por constituírem a base ontológica comum a todo ser humano, jamais perdem a atualidade –. Resgatamos este capítulo de nossa história literária a fim de apontar este ponto de convergência entre Cecília Meireles e Ângelo Monteiro, ponto de convergência que, por sinal, une todos os autênticos artistas da palavra.

De fato há na lírica de Ângelo Monteiro aquele alicerce filosófico sem o qual, para G. K. Chesterton, a poesia se torna oca. É que, ao se voltar para as questões verdadeiramente fundamentais da condição humana – como a finitude, o exílio do homem, o sentido último da vida –  Monteiro, à maneira de Hölderlin, nos põe face a face com o mistério da existência, devolvendo à poesia o seu papel originário, que é de, segundo Johann Wolfgang von Goethe, ser “a voz do inefável”. Daí não ter sido à toa que o nosso poeta escolheu o título de Todas as Coisas Têm Língua para nomear a coletânea que reúne a maior parte de sua obra poética, uma vez que o autor de O Exílio de Babel sempre teve a convicção de que cabe à poesia a excelsa tarefa de traduzir “a linguagem divina através da qual a natureza se expressa”, para usarmos a feliz expressão de filósofo irlandês George Berkeley. Neste sentido, podemos dizer que o poeta é uma espécie de Prometeu, ainda que o destino daquele seja, no mais das vezes, menos trágico.

Se há um epicentro na lírica de Ângelo Monteiro, esse epicentro é o mistério. Não aquele pseudomistério de certas historietas góticas ou o mistério kitsch, que a indústria cultural transformou em mercadoria enlatada. Mas aquele mistério que aponta para a transcendência, para as bodas místicas (as palavras místico e mistério possuem, não por acaso, o mesmo radical). E foi precisamente por isso que utilizamos como critério para a seleção dos poemas que compõem esta antologia a baliza do mistério. Assim sendo, procuramos privilegiar as poesias que nos lançam diante dos mais intrigantes enigmas, pois, como nos diz o próprio poeta, “a palavra é outra esfinge/ a invocar no poço profundo/ a velha esfinge do destino”.

Fiquemos bastante atentos, portanto, ao Canto da Esfinge.


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MONTEIRO, Ângelo. O Canto da Esfinge. Recife: Edições Tarcísio Pereira, 2013.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Entrevista ao grande poeta e filósofo Ângelo Monteiro

     



            Entrevista publicada originalmente na revista Tom, do Paraná, em meados 2013


    Bernardo Souto A que se deve o vale-tudo estético que impera na poesia brasileira contemporânea?

Ângelo Monteiro:  O que se pode esperar senão isso da experiência de pobres estudantes colhidos numa armadilha criada por seus desorientados mestres, que fizeram introduzir, com critérios meramente mercadológicos, nos livros didáticos do curso médio, letras de músicas geralmente desqualificadas em vez de textos dos nossos prosadores e poetas como em passado mais recente?

     BS: O senhor concorda com o filósofo romeno Emil Cioran, para quem o escritor é o ser mais vaidoso que existe?

AMCioran apenas nos repete a lição do Eclesiastes, ao nos proclamar, para todo o sempre, que tudo, ao final das contas, não passa de vaidade.

BS: O senhor acha que a poesia perdeu a sua função pedagógica?

AM:  Antes de perder sua função pedagógica, que é a de nos apontar para a transcendência, por meio do seu caráter paradigmático, ela viu desfigurada sua própria função estética, que é a de educar os nossos sentidos. 

   BS:  Até que ponto o marxismo cultural contribuiu para o declínio das artes?

AM: O marxismo, por desconhecer e desprezar qualquer plano axiológico, de acordo com sua conhecida visão coletivista ou niveladora, teria que fatalmente colocar no mesmo nível o estético e o inestético em arte, conforme vem acontecendo nos espaço da autonomeada arte contemporânea.   

BS: Existe alguma relação entre o ateísmo contemporâneo (neo-ateísmo) e o declínio das artes?

AM: A morte do sagrado,seja qual for a sua forma, leva necessariamente ao declínio das artes. Dá-se, então, uma completa inversão da sentença do filósofo pré-socrático Tales de Mileto: “Tudo está cheio de deuses.” Ou seja: com a erradicação do divino, tanto no seio da physis (natureza) como no passado filosófico, quanto no seio da cultura, como no mundo contemporâneo, a arte passa a sofrer um processo de decadência. Daí a ênfase de pensadores como Heidegger ao considerar, como fazendo parte do que ele chama de âmbito quadripartido os céus, a terra, os deuses e os mortais. Ou de um Alfonso López Quintás para quem “as coisas são pontos de confluência de realidades diversas que se entremisturam.” É impossível, portanto, qualquer inspiração artística sem essa inter-relação vital e dinâmica entre os múltiplos âmbitos da realidade como postulam, por exemplo, dois conhecidos biólogos do nosso tempo, Maturana e Varella.

BS: Como explicar o desinteresse dos jovens brasileiros pelas obras de autores canônicos, como Camões e Machado de Assis?

AM: Esse desinteresse é justamente o resultado da redução de toda curiosidade intelectual às diretivas da chamada cultura de massa.


BS: O que motivou o senhor a escrever o livro Arte ou Desastre?

AM: Acredito que Arte ou Desastre é mais uma tentativa, entre muitas talvez desconhecidas, de chamar a atenção para o descalabro de uma cultura que, sob todos os aspectos, encarna a mais acabada negação de si mesma. 

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Entrevista

Entrevista do escritor Bernardo Souto ao musicólogo, jornalista e compositor Carlos Eduardo Amaral

Originalmente publicada no site Audições Brasileiras, a 15 de abril de 2014





Carlos Eduardo Amaral: Bernardo, o que é poesia (e o que ela não é)?

Bernardo Souto:  Arte verbal rítmica, a poesia é uma maneira de expressar os estados de alma mais profundos, seja através de símiles, metáforas, metonímias ou outros tropos. Para Goethe, a poesia é a "voz do inefável"; para Paul Valéry, "é uma tentativa de representar ou restituir por meio da linguagem articulada aquelas coisas ou aquela coisa que os gestos, as lágrimas, as carícias, os beijos, os suspiros procuram obscuramente exprimir". 

O que não é poesia? Não é poesia todo discurso que recorra ao que Heidegger chamava de "falatório", que é uma estratégia retórica utilizada para evitar o confronto com os mistérios da existência e a sondagem do psiquismo profundo. Também não é poesia o texto (ainda que disposto em versos) alicerçado em lugares-comuns, frases feitas, ou qualquer outra espécie de automatismo discursivo.

CEA: A poesia pode prescindir da forma?

BS: Não. Pode prescindir das chamadas formas fixas, dos versos rimados e metrificados que encontramos nos sonetos, nas baladas e nos rondós, por exemplo. Eis por que existem poemas em prosa de elevado valor estético, como os de Baudelaire, os de Rimbaud e os de Francis Ponge; existem também inúmeras composições em verso livre que se ombreiam esteticamente às obras-primas na poesia tradicional, como o poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, ou as Elegias de Duíno, de R. M. Rilke, O importante é que o campo de força sonoro do poema esteja bem construído, sobretudo no caso do verso livre, e que haja consanguinidade entre as imagens e atmosfera coesa, sobretudo no caso do poema em prosa. Quanto ao que a crítica costuma chamar de poesia visual, não é poesia de forma alguma, visto que a palavra passa a exercer um papel subalterno dentro da composição.

CEA: Qual expressão de lirismo disposta arbitrariamente em versos é poesia?

BS: Não há. T. S. Eliot –  que era exímio versilibrista –  dizia que o verso livre, lato sensu, não existe. Com este paradoxo, Eliot quis expressar a sua preocupação em relação aos aspirantes a poeta que não entendiam a verdadeira natureza do verso livre, tão bem expressada por Manuel Bandeira:

"Verso livre cem por cento é aquele que não se socorre de nenhum sinal exterior senão o da volta ao ponto de partida, à esquerda da folha de papel: verso derivado de vertere, voltar. À primeira vista, parece mais fácil de fazer do que o verso metrificado. Mas é engano. Basta dizer que no verso livre o poeta tem de criar seu ritmo sem auxílio de fora. É como o sujeito que solto no recesso da floresta deva achar o seu caminho e sem bússola, sem vozes que de longe o orientem, sem os grãozinhos de feijão de João e Maria. Sem dúvida, não custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribuí-lo em linhas irregulares, obedecendo tão-somente às pausas do pensamento. Mas isso nunca foi verso livre. Se fosse, qualquer um poderia pôr em verso até o último relatório do Ministro da Fazenda. Essa enganosa facilidade é causa da superpopulação que infestam agora as nossas letras. O modernismo teve isso de catastrófico: trazendo para a nossa língua o verso livre, deu a todo o mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é poema. Resultado: hoje, qualquer subescriturário de autarquia em crise de dor de cotovelo, qualquer brotinho desiludido do namorado, qualquer balzaquiana desajustada no seu ambiente familiar se julgam habilitados a concorrer com Joaquim Cardozo ou Cecília Meireles."

Alguns – os bitolados – não conseguiram captar as sutilezas que há nas palavras de Eliot e de Bandeira, e por isso, de forma pueril, acreditam que qualquer composição em verso livre é subpoesia; outros, de maneira igualmente cretina, acham que as formas fixas estão  ultrapassadas. Um dia, espero, alcançaremos a sensatez do meio-termo.

Um poema de Emmanuel Santiago

                                                            pintura de Paul Delvaux



Sonho recorrente ou seis passos para um poema surrealista

Assim se sucedeu naquele sonho:
era noite quando uma jovem moça
perguntava-me as horas. Eu lhe disse:
“Não sei não, senhorita, mas é tarde;
não há ninguém na rua, não há nada”.
Ela, então, deu um tiro na cabeça.

Era noite de novo; na cabeça
a sensação de estar vivendo um sonho
como se caminhasse sobre o nada.
Chegou-se a mim aquela jovem moça:
“Morri, ressuscitei; é muito tarde.
Mate-me agora mesmo!”, ela me disse.

Era de noite quando alguém me disse:
“Veja só, estourei minha cabeça
e não posso emendá-la, pois é tarde!”,
e tudo se passava como num sonho.
Diante de mim, aquela jovem moça
estava morta; não dizia nada.

De noite outra vez, não se via nada.
Do escuro, soou uma voz que disse:
“Não se esqueça daquela jovem moça
que levou um balaço na cabeça!”.
Lembrei-me vagamente de algum sonho,
mas não pude retê-lo. Era tarde.

De noite. Muito escuro. Muito tarde.
Já não me lembro mais de quase nada
e vejo as coisas turvas, feito um sonho.
Só sei que certa vez alguém me disse:
“Cuidado! Não atire na cabeça!”.
No chão, jaz o cadáver de uma moça.

Percebo-me: sou uma jovem moça
andando por aí — tarde, bem tarde.
Estou morta e não tenho mais cabeça;
nas mãos, trago um revólver e mais nada.
“Não há ninguém na rua”, alguém me disse.
Não sei se sou real nem sei se sonho.

        É sempre o mesmo sonho, a mesma moça,
        algo que alguém me disse muito tarde,
        um tiro e só. Mais nada na cabeça.

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Emmanuel Santiago nasceu em São Lourenço, sul de Minas Gerais, em 1984. Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP) e formado em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), atualmente, reside em Jacareí/SP e cursa o doutorado em Literatura Brasileira, também na USP. É autor de Pavão bizarro, livro de poesia publicado pela Editora Patuá.

terça-feira, 14 de março de 2017

Poema "Ressurreição", recitado por Roberto Mallet


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Roberto Mallet é diretor, ator e professor de teatro. É professor de interpretação e improvisação no Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Campinas – UNICAMP desde 2002, e vem fazendo desde 2015 um trabalho de ensino e interpretação vocal na internet, neste site e no curso Encontre sua própria voz.

Em 1992 fundou em São Paulo o Grupo Tempo onde dirigiu os espetáculos Judite (1993), Abismo de Rosas (1994), Teresinha (1998), Canto de Outono (1999) e Drakul – paixão e morte (2002).  Em 2001 voltou a trabalhar como ator, no monólogo Lições de Abismo, direção de Mario Santana, e em Auto-escola de Arte Dramática, com o seu clown Gregorio.  Dirigiu também os espetáculos Don Juan Tenório (1997), A Parábola dos Cegos (1997), Decamerón (2005), Números (2008) e O Último Sarau – uma peça de corpo presente (2014)  Cursou Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde conheceu Maria Helena Lopes (Grupo Tear), com quem estudou de 1980 a 1986, tendo trabalhado como escriba no espetáculo Os Reis Vagabundos (1982) e como ator em Crônica da Cidade Pequena (1984).  Desde 1987 vem se dedicando também ao ensino, particularmente nas áreas de interpretação e teoria teatral, ministrando oficinas e cursos. Frequentemente participa de festivais de teatro como analista de espetáculos.  Foi professor na Universidade Regional de Blumenau (SC), de 1989 a 1992, e no Curso Livre de Formação de Atores do TUCA, de 1992 a 1994.

POESIA X LETRA DE MÚSICA



Por Bernardo Souto

O saudoso bardo Bruno Tolentino –  em artigo publicado no Jornal do Brasil em agosto de 1995, e republicado recentemente como apêndice da nova edição de sua Balada do cárcere (Record, 2016) – explica bem a diferença que há entre poesia e letra de música:

Letra não é texto, é subtexto, até porque é esta a sua função. Hofmannsthal, o maior poeta austríaco do século [20], era também o autor dos libretti para as óperas de Strauss, mas não os reuniu às suas Poesias completas, pela óbvia razão de que a autonomia do poema é de outra ordem. Auden jamais sonhou incluir seus libretti para Stravinsky e Britten nos Collected longer poems,  porque não são poemas, são poéticos, como bem disse o Sr. Lyra, o que não basta para se constituírem em obra literária.
Fernando Pessoa chamou à poesia ‘a música que se faz com as idéias’ ; os franceses chamam suas letras de paroles e não de vers...  As palavras para um texto musical, mesmo erudito, não aspiram sequer à condição de arte autônoma, menos ainda à de poema. Quanto às palavrosas ‘idéias’ dos senhoritos do telecoteco, protestando contra suas “exclusões” de uma Antologia de Poetas, são apenas simplórias, bamboleiam entre o violão, o tamborim na marcação e o reco-reco.  E não se trata nem sequer de coisa deles: é fruto podre de outra armação dos notórios irmãos Campos, que por sua vez copiavam (como é de seu hábito) a tese-hipótese, abortada nos anos 60, do crítico inglês Frank Kermode em favor do letrismo dos Beatles como sendo poesia. Foi-se ver, riu-se muito e nunca mais se ouviu falar dessa tolice no mundo (como se sabe, civilizado) de língua inglesa.[i]

O poeta e ensaísta Wagner Schadeck, meu companheiro de geração, também trata deste tema de forma minuciosa, no denso ensaio Poesia, canto e canção, publicado na Revista Amálgama (https://www.revistaamalgama.com.br/12/2016/poesia-canto-e-cancao/ ).    

 De tempos em tempos, tal debate volta à tona. A recente atribuição do Nobel de Literatura ao cantor e compositor norte-americano Bob Dylan pôs novamente o assunto em evidência. Afinal de contas, o que de fato diferencia o poema da letra de música?  Nos próximos parágrafos, direi o que penso a respeito, a fim de acrescentar algumas informações ao já riquíssimo corpus existente. Ei-las:

Na canção musical, como bem percebeu Manuel Bandeira, a letra está como que “algemada à melodia”[ii]. A observação de Bandeira é bastante esclarecedora, uma vez que a melodia da canção, muitas vezes, nasce antes da letra (é importante salientar que canção musical não tem nada a ver com a canção poética, que é uma fôrma lírica surgida no medievo europeu).  Já na poesia lírica, o campo de força sonoro, para usarmos uma expressão cara a Emil Staiger[iii], é construído através da recorrência intencional de certos sons semelhantes, tais como: rimas, paranomásias, paralelismos, aliterações consonantais, assonâncias, etc.; também é arquitetado pela cadência e pela modulação rítmica e acentual (ou seja, a melodia é intrínseca). A poesia lírica não devem ser moldada por nenhum elemento extrínseco ou exterior, sob pena de redirecionar a correnteza da linguagem, interferindo naquilo que Valéry chamou de “permanente oscilação entre som e sentido”[iv] – fenômeno que se dá no seio mesmo da esfera sonoro-semântica do poema durante a sua gestação –.    
É que ritmo do poema, como bem observou Vladimir Maiakóvski, nasce do “fluxo do psiquismo”[v], que está diretamente ligado à Stimmung – isto é, à “disposição anímica” através da qual “o sujeito mergulha em si mesmo”, nas palavras de Staiger –. Ocorre que, quando existe a presença de um elemento extrínseco – por exemplo, a melodia de origem instrumental –, essa “disposição anímica” passa a ser pré-determinada, interferindo na sondagem autêntica do psiquismo profundo.  

Para o poeta inglês Wordsworth, poesia é "emotion recollected in tranquility" (“emoção recolhida na tranquilidade”), recolhida dos recessos mais profundos da alma, onde medra a recordação. “O passado como tema do lírico é um tesouro de recordação”, diz-nos Staiger. É bastante significativo, a propósito, o regate etimológico da palavra recordação feito pelo ensaísta alemão: re-cordar (do latim re-cordis, que significa trazer de volta ao coração).

Fica claro, portanto, que a poesia possui uma densidade bem diversa da canção musical popular – esta, em geral,  estruturada de maneira simples, visto que o seu objetivo primordial é o entertainment, o que praticamente a obriga a ser de fácil assimilação: em suma, a possuir um tecido metafórico bem menos sofisticado e um ritmo que é refém da melodia extrínseca. Além disso, como observou Tolentino, as melodias instrumentais, por via de regra, estão demasiado presas ao  Zeitgeist, ao espírito da época.  

Outro ponto interessante é o seguinte: tanto os textos dos salmos bíblicos como os poemas de provençais de Arnaut Daniel, de Guilhem de Poitiers ou de Bernart de Ventadorn eram acompanhados por instrumentos musicais, e não pré-moldados para se encaixar em melodias produzidas por instrumentos de corda ou de sopro.      

Podemos concluir,  pelo que foi dito acima, que há diferenças muito significativas entre a natureza do poema e a natureza da canção musical, o que não quer dizer que a questão esteja encerrada. É que, embora não aconteça com frequência, existem algumas letras de música que se sustêm como poemas de valor.  São os casos, por exemplo, das milongas produzidas pelo grande escritor argentino Jorge Luis Borges (como a Milonga de Manuel Flores e a Milonga de Calandra), ambas incluídas pelo autor portenho em suas Poesías Completas[vi].     





[i] TOLENTINO, Bruno. A Balada do Cárcere.  Rio de Janeiro: Record, 2016. pp. 177- 179.
[ii] BANDEIRA, Manuel. Manuel Bandeira: Poesia e Prosa (vol. 2). Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958.
[iii] STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais de poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1993.
[iv] VALÉRY, Paul. Variedades. Tradução Maiza Martins de Siqueira. São Paulo Iluminuras, 2011.
[v]  MAIAKÓVSKI, Vladimir. “Como fazer versos?” in SCHNAIDERMAN, Boris. A poética de Maiakóvski. São Paulo: Perspectiva, 1971.
[vi] BORGES, Jorge Luis. Poesía completa. Barcelona: Debolsillo, 2015.  

sábado, 11 de março de 2017

Três poemas do 'Teatro de sombras'





BLAISE  PASCAL

nunca
ninguém
jamais
será escutado

surdo é o grito
dos afogados

(Bernardo Souto)

***

HERMES

as brancas águas do silêncio
dissolveram-me os tímpanos
e meu brado lacerou
o duro tecido dos séculos
restou-me caçar esfinges
por entre miragens no deserto

(Bernardo Souto)

***

ECLESIASTES II

nadar
desde a Madrugada dos Tempos
nadar
até que o pescador implacável
lance a rede sobre o mar

(Bernardo Souto)

________________________


SOUTO, Bernardo. Teatro de sombras. Recife: Edições Moinhos de Vento, 2011. p. 16, 24 e 26

quinta-feira, 9 de março de 2017

Cinco poemas de 'Elogio do silêncio'




manhã de neblina
agora é branco
o verde da colina

(Bernardo Souto)

***

velho xadrez
o sopro do vento
derruba os reis

(Bernardo Souto)


***

raia a madrugada
um mar de nuvens
sorve a passarada

(Bernardo Souto)

***

a semente, vê:
tão pequenina
e virou ipê

(Bernardo Souto)

***

sol, não vá embora!
abraçada ao ramo
a cigarra chora

(Bernardo Souto)

_________________

SOUTO, Bernardo. Elogio do silêncio. Recife: Ed. do Autor, 2010. p. 27, 30, 39, 46 e 47.

P.S.: Alguns poemas estão ligeiramente modificados.

Conservatives x Progressives




"The whole modern world has divided itself into Conservatives and Progressives. The business of Progressives is to go on making mistakes. The business of Conservatives is to prevent mistakes from being corrected."

― G. K. Chesterton, Illustrated London News, 1924

sábado, 4 de março de 2017

NESTE PAÍS É PROIBIDO SONHAR






Por Bernardo Souto

"Não há mais público para o sonho."  (Ângelo Monteiro, "Elegia sobre o canto")

Talvez tenha sido Carlos Drummond de Andrade o poeta que melhor compreendeu o Brasil, assim como Whitman, sem dúvida, foi o que melhor compreendeu os EUA. E Drummond, de fato, sacou TUDO, quando, às vésperas da década de 1930 – ano em o livro Alguma poesia veio a lume  – constata que "nesse país é proibido sonhar” (cf. poema "Sentimental"). E como "neste país é proibido sonhar", o José da famosa poesia drummondiana, publicada alguns anos depois do poema "Sentimental", é um homem desesperançado e sem rumo, incapaz de enxergar a dimensão sagrada da existência, porque, para ele, depois de terminada a festa, "tudo acabou, tudo sumiu, tudo mofou". Assim, o nosso trôpego José, proibido de sonhar, é incapaz de abrir a porta que dá acesso à transcendência, pois para ele "não existe porta" e, como já não consegue olhar para as coisas do Alto, "quer morrer no mar", esse inconstante e furioso espelho do céu.

Ora, o José da poesia de Drummond é, de certa forma, o oposto simétrico do Glorioso São José, Pai Nutrício do Salvador, já que é através do sonho que o Esposo da Virgem Santíssima recebe a visita do Anjo do Senhor, que lhe comunica a Boa Nova. O direito de sonhar, portanto, confere ao Patriarca da Sagrada Família o acesso à Porta que fora vedada ao José brasileiro, proibido de sonhar como o jovem apaixonado do poema "Sentimental".

Neste e em muitos outros episódios, o sonho – esse irmão gêmeo da poesia, da imaginação e do sagrado –, é uma das pontes que liga o homem ao universo do numinoso e da sobrenaturalidade, assim como os poemas-devaneios do salmista Davi, todos eles inspirados pelo Espírito Santo, são, quando recitados por Cristo, Palavras feitas com mesma Substância de que o Céu foi feito.

Se Calderón de la Barca estava errado, quando, em sua obra magna, afirmou que "a vida é sonho", por certo não podemos dizer o mesmo em relação a Shakespeare, que, em A Tempestade, afirma, por intermédio da boca de Próspero, que "somos feitos da mesma matéria de que os sonhos são feitos".



Mas deixemos isso de lado e voltemos a falar de política, uma vez que "neste país é proibido sonhar".

Três poemas de 'O corvo e o colibri'





APARIÇÃO

O mistério escapou por entre os dedos
À maneira de um peixe incandescente –
Era azul como o sonho de um pássaro
E negro como as asas da serpente.
O mistério luziu como um relâmpago,
E depois se ocultou, subitamente.

(Bernardo Souto)

***

HERMANN HESSE

Essa mudez verde que há nas árvores
Insuflou em minh'alma uma brisa eterna --
Qual revoada de voláteis aves
Dissolvendo-se no Azul da minha Espera.

Na vida, só é vivo o que arde
Como o incêndio do Sol, ao fim da tarde.

(Bernardo Souto)

***

BREVE HISTÓRIA DA QUEDA

A paz é tão somente
A face oculta da guerra.

O Cordeiro com Olhos em Brasa
Dissipou toda a Treva.

A Virgem vestida de Sol
Reescreveu o Mito de Eva.

Mas como as cobras, escolhemos
Errar por entre a relva.

Não somos leves como as aves:

Eis a nossa tragédia.

(Bernardo Souto)

__________

SOUTO, Bernardo. O corvo e o colibri. Ilhéus - Itabuna: Mondrongo, 2015. p. 12, 13 e 18.

quinta-feira, 2 de março de 2017

O MUNDO EM PRETO E BRANCO



“Os ideólogos são ‘terríveis simplificadores’. A ideologia faz com que as pessoas deixem de enfrentar problemas específicos, e de examiná-los à luz dos méritos individuais. As respostas estão prontas, e são aceitas sem reflexão; e quando as crenças são apoiadas pelo fervor apocalíptico, as idéias se transformam em armas, com resultados espantosos.”

(Daniel Bell, O fim da ideologia)


Por Bernardo Souto

Quanto mais simplório o discurso, mais assimilável; quanto mais assimilável, mais adorado pelas multidões; quanto mais adorado pelas multidões, mais raso; quanto mais raso, mais falso. É por isso que Baudelaire dizia, com razão, que ser pouco lido é uma glória. Antonin-Gilbert Sertillanges, em seu exemplar A Vida Intelectual, também chegou à mesma conclusão: "O público, de modo geral, é vulgar e só gosta da vulgaridade. Os editores de Edgar Poe diziam ser obrigados a pagar-lhe menos do que a outros, porque ele escrevia melhor que os outros. Conheci um pintor a quem um marchand de arte dizia: 'Seria bom tomar umas aulas.' — ?... — 'Sim, para aprender a não pintar tão bem'. O homem dedicado à perfeição não entende essa linguagem, ele não aceita por preço algum, sob forma alguma, ser um seguidor do que o Baudelaire chamava de zoocracia"[i]. Baudelaire ilustra brilhantemente essa falta de refinamento estético e intelectual do grande público – essa zoocracia – em um de seus poemas em prosa:

O CÃO E O FRASCO

— Meu belo cão, meu cãozinho, meu querido totó, vem cá, vem respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade.
E o cão, agitando a cauda, o que é, suponho, entre esses pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e, curioso, mete o nariz úmido no frasco destampado; mas subitamente, recuando de susto, late contra mim, à feição de reprimenda.
— Ah, miserável cão! se eu te houvesse oferecido um embrulho de excremento, decerto o cheirarias com delícia e talvez o tivesses devorado. Assim, ó indigno companheiro de minha triste vida, tu te assemelhas ao público, a quem nunca se devem apresentar perfumes delicados, que o exasperam, mas imundícies cuidadosamente escolhidas.[ii]

Ora, não há nada mais patético e deprimente do que o burro que se acha genial.  É claro que, como cristãos, devemos ter misericórdia. Mas, quando a burrice vem acompanhada da presunção e da arrogância, é algo deveras difícil de suportar.

Qualquer idiota, afinal de contas, deveria saber que compreender a complexidade do real é tarefa de uma vida inteira, a menos que o Espírito Santo dê ao sujeito enorme quantidade de sabedoria infusa, o que, convenhamos, não é lá muito freqüente... Sócrates teve plena consciência disso, pois que conseguia intuir os limites da cognição humana e, por isso mesmo, pôde ser um homem verdadeiramente humilde. Também o poeta japonês Matsuo Bashō, à sua maneira, sintetizou bem tal idéia: "Só deve ensinar quem já sabe de tudo". É uma sentença hiperbólica, claro.  Mas, pelo menos, nos ajuda a ter um vislumbre do caminho a seguir.

Os ideólogos, contudo, têm verdadeiro horror à complexidade do real. Por isso, a fim de justificar suas narrativas simplórias e frágeis – com as quais tentam desesperadamente ocultar de si mesmos o cadáver espiritual que dentro deles apodrece –, começam a filtrar maliciosamente as notícias, numa tentativa algo desesperada de fazer do mundo a argila com a qual moldarão seus rostos carcomidos: gesto cuja puerilidade não deixa de ser uma espécie de paródia satânica do divino ato da criação. E assim, à maneira dos esquizofrênicos e dos retardados crônicos, se abrigam nestes simulacros de mundo, resguardando-se de qualquer paradoxo que ponha em xeque a lógica precária de seus puzzles infanto-juvenis. Para eles, tudo se resume à estrutura binária do jogo de damas; eis por que pensam, mui ingenuamente, que o mal sempre aparece vestido de negro...

No fundo, Ortega y Gasset estava certo, quando, no prefácio à primeira edição de A Rebelião das Massas escreveu que  "ser de esquerda é, como ser de direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil; ambas, com efeito, são formas de hemiplegia moral". 




[i] SERTILLANGES, Antonin-Gilbert. A Vida Intelectual. São Paulo: É Realizações, 2010. p. 16.
[ii] BAUDELAIRE, Charles. Pequenos Poemas em Prosa. Trad. Aurélio Buarque de Hollanda, 1950.